Filmes brasileiros para ver, ou rever, e repensar o Brasil de hoje
Que esta lista sirva como um ponto de partida para que você se aventure a conhecer e a se apaixonar pelo cinema nacional.
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Os filmes brasileiros vêm ganhando cada vez mais destaque, dentro e fora do país, por explorarem temas complexos com naturalidade e profundidade. Diferente do que muita gente pensa, o cinema nacional vai muito além das comédias populares ou dos dramas convencionais que fizeram sucesso no passado.
Ao longo dos últimos anos, os filmes brasileiros passaram a dialogar com questões urgentes, sem perder a sensibilidade e o olhar crítico sobre a realidade. Eles ocupam espaços importantes em festivais, conquistam público nas plataformas de streaming e mostram que o Brasil tem muito a dizer através da arte.
1. Cidade de Deus (2002)
Cidade de Deus mostra como a violência nasce no cotidiano, desde pequenos delitos até a formação de facções. Assim, a narrativa acompanha Buscapé, um jovem que tenta escapar do crime e se tornar fotógrafo, enquanto outros ao seu redor escolhem caminhos bem diferentes. Tudo se passa na favela carioca dos anos 60 aos 80.
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Fernando Meirelles e Kátia Lund dirigem com precisão, sem romantizar o que está na tela. Aliás, a câmera se movimenta com agilidade, quase como se fosse um personagem observando tudo de perto. Isso cria uma tensão constante e faz o espectador mergulhar na realidade dos personagens, sem filtro.
Já o elenco, em grande parte formado por atores não profissionais, contribui para a força do filme. No mais, a escolha de gravar nas comunidades, com moradores locais, deixa tudo mais crível. E a trilha sonora também acerta, misturando samba, funk e soul.
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2. Central do Brasil (1998)
Central do Brasil começa com a rotina de Dora, ex-professora que escreve cartas na estação para quem não sabe ler nem escrever. Embora cobre barato, algumas vezes rasga mensagens sem enviar. Entretanto, tudo muda quando ela conhece Josué, menino que perde a mãe em um acidente logo após ditar uma carta.
A partir dali, os dois seguem viagem pelo interior do Nordeste em busca do pai do garoto. Todavia, o que parece simples logo revela paisagens áridas, vilarejos esquecidos e um Brasil que quase nunca aparece nas telas. A câmera não exagera, mas registra tudo com cuidado, até nos silêncios.
Fernanda Montenegro entrega uma atuação que sustenta cada cena. Seu olhar cansado, cheio de contradições, dá profundidade à personagem sem precisar de grandes discursos. Já Vinícius de Oliveira, que nunca tinha atuado, consegue equilibrar doçura e raiva com naturalidade.
3. Tropa de Elite (2007)
Tropa de Elite mostra o cotidiano do BOPE no Rio de Janeiro, mas vai além da ação. Ou seja, o filme mergulha na tensão entre polícia, tráfico e corrupção, com cenas que não aliviam em nenhum momento. Desde o início, a narração de Capitão Nascimento conduz a história com ritmo acelerado e cortes secos.
Já a direção de José Padilha aposta no realismo, filmando em locações reais e com enquadramentos que aproximam o espectador da rotina brutal dos personagens. Sem contar a fotografia, carregada de tons frios, os quais reforçam o peso das situações e expõe o desgaste físico e psicológico da tropa.
Wagner Moura transforma o Capitão Nascimento em uma figura intensa e contraditória. Seu cansaço, o olhar paranoico e a rigidez com os subordinados dizem muito mais do que qualquer fala. Por fim, a trilha sonora, com destaque para ‘Tropa de Elite’ do Tihuana, marca presença e cria uma atmosfera tensa que não se desfaz até os créditos.
4. O Auto da Compadecida (2000)
O Auto da Compadecida mistura elementos do teatro nordestino com humor popular e críticas sociais bem diretas. Assim, a trama gira em torno de João Grilo e Chicó, dois amigos que sobrevivem com truques, mentiras e uma boa dose de esperteza no sertão da Paraíba. Inclusive, o roteiro é uma adaptação da peça de Ariano Suassuna.
Se dúvida, a direção de Guel Arraes equilibra o tom cômico com momentos mais sérios, como o julgamento final, onde entram em cena o Diabo, Jesus e a Compadecida. Inclusive, a mistura de real e fantástico funciona porque o exagero faz parte da linguagem da obra. Os efeitos visuais são simples, mas suficientes para sustentar esse clima quase de fábula.
E não podemos deixar de dizer que o elenco também acerta em cheio. Matheus Nachtergaele e Selton Mello criam uma dupla carismática, com tempo de comédia impecável. As falas rápidas, cheias de referências culturais, mantêm o ritmo sem deixar espaço para distrações.
5. Que Horas Ela Volta? (2015)
Que Horas Ela Volta? retrata a relação entre patroa e empregada com uma precisão desconfortável. Val, interpretada por Regina Casé, cuida da casa e do filho da família há anos, mas vive em um quarto apertado e segue regras que nunca foram ditas claramente. Tudo se desequilibra quando sua filha, Jéssica, chega do Nordeste.
Assim, a jovem se recusa a aceitar os limites que a mãe naturalizou e isso expõe as tensões de classe que sustentam aquela casa. Jéssica senta à mesa, usa a piscina e fala com firmeza, o que incomoda os patrões. E a câmera observa tudo de longe, como quem assiste a uma estrutura desabar aos poucos.
Anna Muylaert dirige sem pressa, dando espaço para os silêncios e constrangimentos. Regina Casé constrói uma Val cheia de afeto, mas também marcada pela culpa e pelo medo. A mudança começa justamente quando ela encara essas marcas sem abaixar a cabeça.
6. Bacurau (2019)
Bacurau começa com o luto pela morte de Dona Carmelita, mas logo deixa claro que a ameaça principal vem de fora. Afinal, o vilarejo some do mapa, perde o sinal e vira alvo de um grupo estrangeiro armado. Assim, a narrativa mistura ficção científica, faroeste e crítica política sem suavizar os choques.
Os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles constroem o suspense aos poucos, mas sem enrolar. Inclusive, o roteiro entrega momentos de tensão e violência com ritmo preciso, sempre ancorado nas reações coletivas da comunidade. Cada personagem, mesmo os secundários, tem função clara dentro da resistência.
A fotografia aposta em cores quentes e horizontes abertos, que contrastam com a sensação de cerco. Já a trilha usa desde tecno brega até John Carpenter, o que reforça o clima estranho do filme. Sonia Braga e Udo Kier entregam atuações opostas, mas potentes, e a montagem evita excessos mesmo nas cenas mais intensas.
7. Ainda Estou Aqui (2024)
Ainda Estou Aqui retrata a luta de Eunice Paiva para encontrar respostas sobre o desaparecimento do marido, Rubens Paiva, durante a ditadura militar. Assim, o filme mostra os anos 70 no Rio de Janeiro, retratando o medo e a repressão com detalhes que fogem do lugar comum. A atuação de Fernanda Torres dá voz a essa história marcada por dor e coragem.
Aliás, a direção equilibra cenas íntimas com o contexto político da época, sem cair no melodrama. Já a narrativa acompanha Eunice em sua busca por justiça, revelando também o impacto dessa ausência na família. Selton Mello interpreta Rubens com intensidade, mostrando o homem por trás da figura política.
Os diálogos trazem referências históricas sem perder naturalidade, o que aproxima o espectador da realidade vivida pelos personagens. A trilha sonora pontua momentos de tensão e esperança, reforçando a atmosfera do filme. Por fim, é o primeiro filme brasileiro a receber um Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro.
É isso! Cada um desses filmes brasileiros é um convite para ir além do senso comum e descobrir a profundidade, a criatividade e a relevância das produções nacionais. Já que chegou até aqui, conheça alguns filmes dos anos 80 que ainda emocionam, divertem e surpreendem. Até a próxima!